|
Senhor, ensina-nos a contar...
Por: June Imaculada Soares V. B. Ribeiro
Senhor, ensina-nos a contar...
Devagar se vai ao longe... A pressa é inimiga da perfeição”... Ao planejar e iniciar o ano de 2007 na escola cristã, será que esses velhos ditados não merecem novamente nossa atenção? Parece que a sabedoria popular está refletindo a oração de Moisés: “Ensina-nos a contar os nossos dias, para que o nosso coração seja sábio.” SL. 90:12 Nestes tempos de desenfreada loucura, acredito que devamos buscar uma vida e uma escola livres da ansiedade do ter e do fazer para alcançarmos a qualidade e a integralidade do ser.
As reflexões desse texto foram inspiradas numa mensagem que recebi e, para ser fiel ao autor, vou transcrever, sempre em destaque, alguns trechos dela:
“Já vai pra 18 anos que estou aqui na Volvo, uma empresa sueca. Trabalhar com eles é uma convivência, no mínimo, interessante. Aqui, qualquer projeto demora dois anos para se concretizar, mesmo que a idéia seja brilhante e simples. É regra. Então, os processos globais, causam em nós brasileiros, americanos, australianos, asiáticos aflitos por resultados imediatos uma ansiedade generalizada. Porém, nosso senso de urgência não surte qualquer efeito neste prazo. Os suecos discutem, fazem n reuniões, ponderações... E trabalham num esquema bem mais slow down”. O pior é constatar que, no final, acaba sempre dando certo no tempo deles com a maturidade da tecnologia e da necessidade: bem pouco se perde aqui...
Ensina-nos a contar os nossos dias... e a investir e persistir até o fim nos projetos e princípios em que acreditamos, ao invés de desistir quando as coisas demoram a acontecer...
“O pais inteiro é do tamanho de São Paulo e tem 2 milhões de habitantes; sua maior cidade, Estocolmo, tem 500.00. Aqui no Brasil, apenas em Curitiba temos 2 milhões. Mas. observe as empresas desse grande país: Volvo, Scania, Ericsson, Electrolux, ABB, Nokia, Nobel Biocare... Nada mal, não? Pra se ter uma idéia, a Volvo fabrica os motores propulsores para os foguetes da NASA.
Ensina-nos a contar os nossos dias, para que o nosso foco seja a qualidade da vida que vivemos e da educação que praticamos, e não a quantidade de pessoas que nos ouvirão, pois tão rapidamente passarão por nós, quanto nossa mensagem durará para eles... É certo que desejamos crescer. Crescer com saúde, vencendo cada etapa: primeiro engatinhar para depois correr; balbuciar para depois cantar; garatujar para mais tarde escrever lindas histórias. E, para crescer assim, será preciso contar cada dia. Viver bem cada um deles como “ O dia - que o Senhor fez...” Fazer da sala de aula, do parquinho e do refeitório dos professores tempos e espaços de relacionamento, de encontro e até dos desencontros que têm um enorme potencial de transformação. Aprendi na mensagem recebida algo importante sobre a cultura sueca:
“... Não conheço um povo que tenha mais cultura coletiva do que eles. A primeira vez que fui para lá, em 90, um dos colegas suecos me pegava no hotel toda manhã. Era setembro, frio leve e nevasca. Chegávamos cedo na Volvo e ele estacionava o carro bem longe da porta de entrada (são 2000 funcionários de carro). No primeiro dia não disse nada. Depois, com um pouco mais de intimidade, numa manha perguntei: Vocês tem lugar demarcado para estacionar aqui? Notei que chegamos cedo, o estacionamento está vazio e você deixa o carro lá no final... E ele me respondeu: é que chegamos cedo, então temos tempo de caminhar - quem chegar mais tarde já vai estar atrasado, melhor que fique mais perto da porta. Você não acha? Olha a minha cara!
Ensina-nos a contar os nossos dias para que neles haja lugar para nossa família, para nossos amigos e colegas de trabalho. Que nossas escolas cristãs sejam um lugar de cooperação, e não de competição. Que a realização do meu trabalho, não prejudique ou ofusque o trabalho do outro. Mas, que a “justa cooperação de cada membro” traga saúde e longevidade para esse corpo, chamado escola.
“Há um grande movimento na Europa hoje, chamado Slow Food. Ele prega que as pessoas devem comer e beber devagar, saboreando os alimentos, curtindo seu preparo, no convívio com a família e com amigos, sem pressa e com qualidade. Segundo a Business Week, os trabalhadores franceses, embora trabalhem menos horas, (35 horas/semana) são mais produtivos que seus colegas americanos ou ingleses. E os alemães, que em muitas empresas instituíram uma semana de 28,8 horas de trabalho, viram sua produtividade crescer nada menos que 20%. Essa chamada slow attitude está chamando a atenção até dos americanos, apologistas do Fast (rápido) e do Do it Now (faça já). Portanto, essa atitude sem-pressa não significa fazer menos, nem menor produtividade. Significa, sim, fazer as coisas e trabalhar com mais qualidade e produtividade com maior perfeição, atenção aos detalhes e com menos stress. Significa um ambiente de trabalho menos coercitivo, mais alegre, mais leve e, portanto, mais produtivo, onde seres humanos felizes fazem, com prazer, o que sabem fazer de melhor.”
E o que sabe um educador fazer de melhor? Ensina-nos a contar os nossos dias para que priorizemos o tempo de planejar atividades interessantes e relevantes, ao invés de seguir os modismos da educação. Para que possamos orientar nossos alunos a fazer tudo com excelência, priorizando a qualidade ao invés da quantidade, através do nosso próprio exemplo. Que tal mostrar seu caderno para eles? Será que dá tempo de brincar um pouquinho? De escutar um pouquinho, para chorar com os que estão tristes e comemorar as pequenas alegrias? Falar dos princípios é menos importante do que vivenciá-los na relação professor aluno.
Ensina-nos Senhor, a nós educadores cristãos, a perceber como cada dia é único e como eles são breves. Que o tempo é igual para todos, pois ninguém tem menos que 24 horas por dia. Ensina-nos, a nós que temos a pretensão de ensinar aos outros, como é preciosa a vida que nos deste e que ela é feita de cada segundo vivido. Não será “mais vida” quando tivermos melhores salários ou o doutorado que aspiramos. Nossa vida está acontecendo no presente, enquanto planejamos o futuro. Precisamos compreender que seis dias de trabalho serão vãos se não entrarmos no teu descanso. Por isso, Deus eterno – tu cujos anos não têm fim, continue nos atraindo para perto de Ti, para que o nosso coração seja sábio e, então, possamos ensinar ...
|